De Espanha nem bom vento, nem bom casamento...
Quanto andava no 1º ano (o que equivale agora ao 5º ano, [como estou velha, pareço a minha mãe a falar do antigo 7º ano]), o programa curricular incluia História. Até aí, interessava-me pelo assunto, mas a minha paixão pelo tema foi motivada pela
stôra que então me deu aulas.
Muito honestamente, já não me recordo do seu nome. Mas isso, é facilmente resoluvel, embora implique procurar os meus materiais da altura. De qualquer das formas, esse detalhe não é relevante para o meu propósito. Era uma rapariga jovem, muito bem disposta, simpática e um pouco rechonchuda. As suas aulas assemelhavam-se a uma novela ou ao Dragonball (que obviamente só surgiu muito mais tarde, já andava na Faculdade), uma vez que sempre que soava o toque, sustinhamos a respiração e ficávamos em suspenso até à aula seguinte, em que finalmente poderíamos respirar de alívio e saber o destino dos nossos personagens históricos favoritos. Era um pouco o mítico "não percam o próximo episódio, porque nós também não."
O programa do 5º ano tratava da História de Portugal. Começava nos primeiros povos que habitaram a Península Ibérica e iamos por aí a fora até à formação de Portugal, à Reconquista Cristã, a consolidação das fronteiras, o povoamento, as cruzadas, ...
As aulas eram visuais, no sentido em que nos sentíamos transportados numa máquina do tempo, até ao ano em questão. As descrições da professora eram vivas e animadas. Sentiamo-nos parte da história, vibravamos com os acontecimentos, apontavámos favoritos, tomávamos posições, esgrimiamos argumentos, entusiasmavamo-nos e, não raro, os ânimos exaltavam-se! Era uma professora bestial! Não tenho duvidas que na minha turma toda a gente ficou fã de história.
E também não tenho dúvidas de que se forjaram inimizades mortais com os espanhois... (bem sei que na altura seriam castelhanos, aragoneses, leoneses, navarrenses) . É que acompanhando a história que se desenrolava nas nossas aulas, era para nós bastante claro que os nuestros hermanos não passavam de um povo mesquinho, com ambições ibéricas, que ficou sempre com o nosso valente Portugal atravessado na real gana.
Remonta a essa época, o meu desconforto com os nossos vizinhos. Não só a História nos mostra que em diversas situações não estiveram à altura da ocasião, como também persiste a sensação, de que se julgam superiores aos restantes habitantes da Península. É certo que os indicadores económicos são esmagadores, mas nem só de economia se faz um povo...
Vejamos, quando vamos ao outro lado da fronteira, todos arranhamos "portinhol" e somos generosos em
gracias e
buenos dias. Quando a situação é a inversa, não vejo o mínimo esforço nesse sentido. Os espanhois são pródigos apenas num esforço de comunicação: falam muito alto, gritam, são muito ruidosos, não há como não dar por eles. Claro que a menos que sejamos duros de ouvido, o resultado é contraproducente. Quem é que percebe um nuestro hermano a falar muitos decibeis acima do necessário, a alta velocidade num castelhano cerrado?
Ora a língua levanta um outro problema. À parte alguns bairrismos mais ou menos exacerbados, como a rivalidade Lisboa - Porto, Portugal é um estado nação. Aliás, um dos únicos na nossa velha Europa. Trocando por miudos, quer isto dizer que o povo português partilha as mesmas raízes, a mesma história, tradições, cultura e costumes. Falamos uma mesma língua, a religião dominante é a mesma em todo o território. No fundo "muito mais é o que nos une, do que aquilo que nos separa" (Rui Veloso dixit). Ora, o mesmo não poderemos dizer sobre os nossos vizinhos. Aqui está um ponto em que seguramente nos invejam. A Espanha é um estado composto por várias nações distintas, com línguas, cultura, costumes e tradições diferentes e que, ainda por cima, não coabitam facilmente. Podemos dizer que se trata de um barril de pólvora a aguardar que acendam o rastilho.
Muitas outras diferenças podem ser apontadas: república/monarquia, trabalho/siesta, touradas a cavalo/touros de morte, fado/salero, .... Somos, de facto, muito diferentes, o que em si mesmo não preconiza nada de mal. No entanto, basta lembrar-me, por exemplo, da Batalha de Aljubarrota e do Cerco de Lisboa e as emoções brotam à superficie da pele.... Nuestros hermanos, vamos com calma. Vizinhos e já vão com sorte!