Tudo começou com uma afirmação na minha cozinha: "Estivemos a pensar, e vamos tentar ter um bébe a partir do início do ano". Passada a estranheza inicial, uma vez que a futura mãe sempre tinha negado a pés juntos a possibilidade o ser, porque não tinha estabilidade para isso, porque é profissional liberal e não podia gozar a licença de maternidade, por já ter mais de 35 anos, .... um rol de argumentos que até aquele dia tinham resolvido o assunto. Melhor, tinham resolvido o assunto, mas não tinham resolvido o desejo do marido ser pai. E quando se quer viver em harmonia, é importante que ambos estejam sintonizados. E, a meu ver, foi assim que foram vencidas as resistências iniciais e que a velha vontade de ser mãe, o instinto maternal foi acordado e acarinhado...
E, assim foi, no início do ano começaram a tentar e, surpresa das surpresas, quando a estatística diz que em média um casal normal demora 7 meses a conceber, o casal em causa demorou 15 dias. Ena pá, que foram rápidos. O futuro pai andou a apregoar a sua virilidade aos sete ventos, "isto é que é um macho"..... Sem comentários, mas a verdade é que a notícia veio mais cedo do que se pensava possível....
Claro que se deram os parabéns e compraram os primeiros presentes. Sem fazer grande alarido, claro, até porque não se ia contar a toda a gente... Ou ia? Passado uma semana não havia quem na família, amigos e até no local de trabalho não soubesse. A alegria era tanta que transbordava e manifestava-se na vontade obsessiva de falar sobre o assunto... Já se discutiam nomes, escolas, inclinações clubísticas, começou-se a mudar a casa e tudo sem barriga evidente. Afinal só tinham passado cinco semanas...
Num livro comprado, o bébe com este tempo era referido como nódulo. A ecografia que deveria ser efectuada às sete semana, foi realizada às cinco. Tal o afogadilho de ter um filho e só mostrava o saco vitelino. Que raio de nomes!!! Um bébe é um bébé e não um nódulo ou um saco de vaca.... Que impressão!
E, pior, a desilusão de não se conseguir ouvir o coração do bébe. Mesmo assim sessões no sofá para assistir à 1ª ecografia. Não se via nada, mas devia ser mesmo assim, pensei eu....
Finalmente, no fim de semana, sinais preocupantes! Ao mesmo tempo que se descobria que o carrinho de bébe pedido emprestado, teria de ser usado por um bébe que nasceria seis meses mais cedo, surge uma perda de sangue.....
Ah, o médico diz que não é nada - diz a mãe com ar de quem se quer convencer de que não será mesmo nada. Mas, quem é que confiou nestas palavras? É inevitável pensar no pior... Já vi acontecer antes.... por isso, se diz que se deve esperar até às 12 semanas para começar a soltar a festa.... Ainda passaram só sete, mas o sonho desfaz-se a passos de gigante. A perda continua e parece mais acentuada, o médico manda fazer exames e, de repente, é oficial. O embrião não se devolveu e a Natureza segue o seu curso, expulsando o que não pulsa de vida.... Amarga desilusão. O pai engole as lágrimas e o desapontamento, a mãe chora desconsolada, a avó diz que não sentia o bébe, que teve um pressentimento, uma sensação que não sabe explicar mas que lhe dizia que não estava tudo bem... E não se ouvia o bater do coração na ecografia....
Agora, é fácil dizer e fazer e pensar.... Não se devia ter contado a toda a gente... Não valia a pena ter mudado o casa toda.... Não.... Não, quê????
Agora, já está. Sinto-me triste, mas não há nada que eu possa fazer...
Ia ser tia, e agora já não vou.....