Estou farta. Farta. Farta. Farta. F.A.R.T.A. Farta. Fartíssima. Saturada. Completamente farta. Não há quem aguente. Estou tão farta que já nem tenho força para estar mais farta. É triste quando estamos tão fartos, que nem sequer temos energia para nos revoltarmos com tanta fartura. Caímos na apatia da saturação. Já não se suporta nada. Não há paciência que nos valha. Qualquer coisa nos faz perder as estribeiras e a compostura. Grita-se por tudo e por nada. Irrita-se. Pragueja-se. Vocifera-se. Satura-se. Até que chegamos a um ponto em que já nada nos interessa. Está tudo mal. Vemos e reconhecemos que está mal. Podia melhorar, mas isso implica um esforço que já não queremos ou podemos fazer. Who cares? Caímos na apatia. Borrifamo-nos no assunto. Deixamos andar. Não queremos sequer lembrar-nos disso. Para quê ter ideias ou iniciativa? Nada muda. Tudo permanece. Viramos o mundo do avesso e ele teimosamente retoma a posição inicial. Desmultiplicamos esforços e apenas conseguimos suster a marcha atrás. Estou farta! E estou farta de estar farta!
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
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