Há pequenas coisas que eu sei que me fazem mal. Ninguém me disse. Simplesmente sei. Tenho consciência. No entanto, há alturas em que a voragem do abismo é avassaladora. Parece que há uma vontade premeditada de auto-destruição, completamente contra natura.
Os efeitos não são muito perniciosos, mas servem para deitar por terra vontades longamente mentalizadas, propósitos claramente definidos e interiorizados. Todos os dias de manhã, renovo os votos e todos os dias é mais uma batalha.
A tentação é mais forte. E se... Só um bocadinho não faz mal... Mas prometeste que não ias fazer mais isso. Que se lixe! Foi um dia tramado, está-me mesmo a apetecer. Tive muitas chatices, mereço um pequeno conforto. Mas depois já sabes que ficas arrependida... Não quero saber. É só hoje. Amanhã não faço. Ou melhor ainda, e se fizer novamente amanhã? Vem daí mal ao mundo? Alguém tem alguma coisa a ver com isso? Não estou a prejudicar ninguém. Pelo contrário, até fico mais bem disposta. Não, não podes. Controla-te. Não tens vergonha? Pareces uma criancinha. Que treta. Mas o que é que estou a tentar provar? E a quem? E lá cedo...
Todos os vícios são maus por natureza, por definição. Claro que há um ranking de vícios. A própria palavra vício é feia. Remete para algo obscuro, obsessivo e inconfessável. E mais uma vez lá resolvo, decido, escrevo, prometo que não vou tornar a ceder à tentação. Que por uns momentos de magia não vou fazer tábua rasa das minhas convicções.
Mas a carne é fraca... e o vício é tão doce. Quem é que inventou as malditas tabletes de chocolate?
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